Pachinko
Como começar a escrever sobre algo que muda drasticamente a sua visão sobre o mundo? Primeiramente, é difícil de começar. Segundo, existe o medo de nunca encontrar as palavras certas. "Pachinko" é um drama histórico que perpassa três gerações de imigrantes coreanos no Japão, durante a ocupação japonesa na Coreia, que começou em meados de 1910. Nessa época, muitos coreanos foram obrigados à imigrar para o Japão em busca de melhores condições de vida.
Nesse drama histórico familiar, acompanhamos principalmente a história de Sunja, filha de dois coreanos, donos de uma pequena pensão no interior da ilha de Yeongdo, em Busan. Um dia, Sunja conhece um coreano bem sucedido nos negócios financeiros, Koh Hansu, muito respeitado até mesmo pela elite japonesa, e os dois dão início a uma história de amor em meio à paisagem bucólica. No curso desse intenso amor, Sunja descobre que está grávida, e fica maravilhada com a ideia de dar um filho à Hansu. Todavia, para sua infeliz surpresa, Sunja descobre que Hansu não é quem ele diz ser. Ele é casado no Japão e já possui duas filhas, o que faz o seu mundo desmoronar. Sunja se sente compelida a se afastar dele, não importando o quão bom ele parecia ser, nem as coisas que ele despertava nela.
Nesse interím, um homem gentil e bondoso, mas doente e fraco, chamado Isak Baek, se hospeda na pensão de sua mãe. Ele é um pastor presbiteriano que está de passagem, rumo à Osaka, no Japão, para encontrar o seu irmão mais velho. Isak descobre sobre a situação de Sunja, e, mesmo sabendo que talvez ela não aceitasse, sente que deveria propor Sunja em casamento, para a poupar da desonra e da humilhação de ter um filho sozinha. Sunja se vê em um beco sem saída e aceita se casar com ele. Ela é obrigada a abandonar a sua família, sua pátria, e o poderoso e influente pai de seu filho.
A partir desse ponto, o leitor começa a entrar no mundo da discriminação, da falta de humanidade e do preconceito perpetuado pelos japoneses contra os coreanos. É disseminado por eles a ideia da existência de um "bom coreano" e um "mau coreano", que influencia as atitudes de todos os personagens do livro, que queriam sobretudo serem vistos como seres humanos. As oportunidades para os coreanos no Japão eram escassas e os salões de "Pachinko", um jogo de azar praticados em máquinas que se assemelham ao pinball e slot machine, representavam uma das escassas e "à margem da sociedade" oportunidades para os coreanos crescerem financeiramente e moralmente naquele território hostil. O Pachinko, até os dias de hoje, simboliza a resistência, apesar da grande opressão enfrentada pelos coreanos.
"Pachincko" é um livro sobre a dor, sobre a submissão e sobre as privações do ser. É principalmente sobre família e sobre sobrevivência. É também sobre a História da Humanidade e um livro que expande todos os seus horizontes, tanto culturalmente quanto moralmente falando, capaz de mostrar ao leitor a força que existe dentro de todos nós, e a resiliência de nunca deixar de se rebelar, seja da maneira que for. Pois, como o livro nos mostra a todo tempo, até mesmo o silêncio é uma forma de rebelião. A história é magnificamente construída e os personagens possuem personalidades sólidas, a ponto do leitor se perguntar se eles não existiram na vida real. Sem dúvidas foi eleito como uma das minhas melhores leituras de toda vida.
Para vocês que leram até aqui e se interessaram por essa épica história, deixo aqui os meus Quotes marcados e favoritados durante a leitura:
"Viver todos os dias na presença daqueles que se recusam a reconhecer sua humanidade exige muita coragem."
"Aprenda tudo. Encha sua mente de conhecimento - é o único tipo de poder que ninguém pode tirar de você."
"Havia consolo: as pessoas que amamos estão sempre conosco, ela havia aprendido."
"Durante toda a sua vida, Sunja tinha ouvido aquilo de outras mulheres, que ela deveria sofrer: sofrer quando meninas, sofrer como esposas, sofrer como mães, morrer sofrendo. Gosaeng, essa palavra a deixava nauseada. O que mais havia além disso?"
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